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O que é uma evolução médica?

Inicialmente esse texto era pra ser destinado a leitores de fora da área da saúde, mas, do meio pro final me empolguei falando da atuação médica com minha experiência pessoal e no final das contas é um texto também para médicos. Mas, primeiro, vou explicar aos leigos o que significa quando digo que meu trabalho principal consiste em "evoluir pacientes".

Na minha infância a palavra "evolução" imediatamente ativava um link-mental com Pokemon e Digimon. Mas a faculdade substituiu completamente essa conexão pelo termo médico que viria a tornar-se meu labor diário.

Evoluir, como termo médico, significa visitar os pacientes e tomar ciência das alterações que ocorreram de um dia para o outro de modo a orientar as novas condutas de acordo com essas alterações. Se a doença vem em melhora, talvez retirar alguns remédios... se vem em piora, talvez mudar por um mais potente.

É uma tarefa inerente ao ambiente hospitalar, apesar de ser possível também em ambiente de atenção primária se um médico desejar acompanhar ambulatorialmente um paciente diariamente por algum motivo específico, como evitar uma internação desnecessária. Algo que cheguei a fazer enquanto estagiário de uma Unidade de Saúde da Familia (USF). Tinha um paciente com insuficiência cardíaca descompensada, dispneico por excesso de "líquido nos pulmões", não tão grave a ponto de necessitar de uma internação. Então, junto de meu preceptor na época, como o paciente morava logo ao lado da USF, pedimos para ele comparecer todas as manhas no posto de saúde para reavaliar as doses da furosemida (medicamento que aumenta a quantidade de xixi de forma a tirar o excesso de água do corpo -- e dos pulmões).

Em ambiente hospitalar, todas as profissões da saúde evoluem. Os enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, odontologistas... e por aí vai. Cada área com seu modelo de evolução.

Consultas ambulatoriais até podem podem ser vistas como evoluções, mas com um maior intervalo entre as avaliações. Mas na prática a "evolução" remete e algo "diário" mesmo.

Todos os pacientes internados são evoluídos diariamente, da mesma forma que recebem novas prescrições diariamente. O ato de evoluir engloba, diariamente:

E acontece em dois ambientes: no leito, botando a mão no paciente, e posteriormente na frente do computador (a etapa mais demorada) -- ou no papel em hospitais sem prontuário eletrônico.

Gosto muito de evoluir. Fui descobrir isso durante meu estágio numa enfermaria de clínica médica. Antes, minha experiência prática na medicina consistia muito mais em fazer avaliações pontuais de pacientes, como atendimentos de emegência. Evoluindo diariamente um paciente, podemos visualizar as consequências de nossas condutas. Muitas vezes o paciente interna ainda sem diagnóstico e o tempo é o principal "exame", com o tempo a evolução dos sinais e sintomas vai dando a 'cara' da doença e, por vezes, a nossa principal suspeita diagnóstica se revela equivocada. Daí vem a famosa expressão "É muito fácil ser o médico do dia seguinte" que significa justamente que pro "médico de amanhã" é sempre mais fácil acertar, pois amanhã haverão mais informações disponíveis para análise.

Fazendo apenas avaliações pontuais, perdemos esse feed-back tão importante pra solidificar a bagagem de um profissional. Muita coisa na medicina funciona na base da tentativa e erro, e sem ficar sabendo de quando foi um "erro", fica mais difícil ajustar as tentativas pras próximas vezes.

Um exemplo: chega um paciente com queixa de dor de gargante e febre. O médico do dia avalia a garganta, cheia de pús! Decide então passar o antibiótico amoxicilina. No dia seguinte, o paciente retorna se queixando de várias manchas avermelhadas pelo corpo após ingerir o medicamento receitado. O médico do dia seguinte, então, complementa o exame físico verificando linfonodomegalia generalizada e uma leve hepatomegalia... Bingo! Corretamente informa ao paciente que na verdade a doença não é bacteriana, e sim viral, a mononucleose infecciosa. O que o paciente vai pensar nessa hora? "Então o médico de ontem errou!". Mas na verdade a principal informação pra direcionar ao diagnóstico não estava disponível ontem, essas manchas logo após tomar amoxicilina são CLÁSSICAS dessa doença e mataram a charada.

Agora, e se você for tanto o médico de ontem como o médico de amanhã? Pode aprender com esse caso e se atentar para procurar linfonodomegalia e esplenomegalia nos pacientes com faringite, exame que só foi realizado pelo médico do dia seguinte após a pista das manchas. E assim vai aprendendo com a evolução das próprias condutas, através de um auto-feed-back.

Gosto muito de evoluir, principalmente quando consigo fazer com calma sem ter de constantemente desviar a atenção com outras tarefas não urgentes (sim, é um pequeno desabafo). Pois a evolução exige esmero e concentração, é nesse momento que o médico junta as pecinhas do quebra cabeça pra montar a melhor conduta. O momento de fazer a prescrição então, exige foco total, erros alí são inaceitáveis. Por vezes é necessário pedir "licensa, depois resolvo isso, agora estou evoluindo".



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